Impactos ecológicos e gestão do mergulho recreativo: uma revisão global

O turismo de mergulho é uma atividade importante em muitas partes do mundo, atraindo emprego e renda para milhares de pessoas, além de contribuir para a conservação da biodiversidade por meio das taxas de entrada em áreas marinha protegidas (=recurso para a gestão) e sensibilização dos participantes quanto as problemáticas ambientais.

Entretanto, o mergulho pode causar impactos aos ambientes recifais, pois podem ocorrer contatos físicos entre os mergulhadores e o recife, habitat de diversas espécies frágeis como corais, gorgônias e esponjas. A maioria desses contatos ocorrem por meio das nadadeiras e não são intencionais, mas sim, por falta de habilidade ou desatenção do mergulhador. Agora imagine, considerando um número baixo de contatos com o substrato (dois por mergulhador), numa trilha de mergulho que receba por ano cerca de 2 mil mergulhadores, seriam 4 mil contatos com o fundo. E caso 20% desses contatos danifiquem algum organismo, seriam 800 quebras de corais, esponjas, etc. Apesar desse número alto de visitantes não ser comum para a realidade brasileira, muitos destinos altamente procurados, como os do Mar Vermelho e Caribe, recebem até mais mergulhadores por ano.

Durante minha tese de doutorado, eu e meus orientadores encaramos a missão de escrever uma revisão da literatura sobre o turismo de mergulho em ambientes recifais. Nossos objetivos foram descrever quais as características dos mergulhadores que são mais propensos a causar mais contatos com o recife, quais os impactos causados e principalmente quais são as estratégias de gestão para minimizar esses potenciais impactos, garantindo a sustentabilidade do turismo de mergulho.

Quando mal gerido, o mergulho recreativo pode causar uma série de impactos ao recife, resultando na perda da complexidade estrutural, diminuição da riqueza de espécies de peixes e invertebrados. Tais mudanças também deixam o recife menos resiliente aos efeitos das mudanças climáticas. Esses impactos têm efeitos diretos para o turismo de mergulho, pois os visitantes podem perder o interesse no destino devido ao menor apelo estético, reduzindo a satisfação de visitar um local impactado. A figura abaixo ilustra como os impactos ecológicos e sociais estão relacionados.

Impactos ecológicos e sociais do mergulho recreativo em ambientes recifais.

A preocupação com esses impactos têm crescido desde a popularização do mergulho na década de 1990. Um número crescente de iniciativas têm usado estratégias exitosas para a gestão do mergulho recreativo. Dentre elas, as principais são o zoneamento do recife, onde áreas mais sensíveis podem ser fechadas a visitação, ou serem fechadas de tempos em tempos; a determinação da capacidade de suporte, que estabelece limites quanto ao número de mergulhadores por ponto de mergulho; e o uso do briefing pré-mergulho onde os visitantes recebem informações sobre diversos aspectos, dentre eles dicas de como estabelecer o comportamento de mínimo impacto. Outras abordagens também têm sido testadas e utilizadas no âmbito de educação e sensibilização e treinamento, assim como pesquisa e monitoramento para acompanhar a condição do recife e a efetividade dessas estratégias. Cada iniciativa tem uma abrangência, desde o nível local, onde as peças chave são os atores locais até o nível global, onde as certificadoras de mergulho e mídia especializada podem e devem contribuir para um turismo de mergulho de mínimo impacto. A figura abaixo detalha melhor as iniciativas verificadas na revisão, assim como as escalas e sugestões de como cada ator pode se envolver para contribuir com a gestão do turismo de mergulho.

a) número de estudos que testaram ou recomendaram estratégias de gestão para mitigar os potenciais impactos do turismo de mergulho. b) estratégias de gestão organizadas em três escalas.

O monitoramento tanto do recife quanto da visitação são essenciais para subsidiar uma boa gestão do turismo de mergulho. Com essas informações, é possível verificar o quão efetivas têm sido as iniciativas descritas acima em reduzir os impactos do mergulho. Um bom exemplo de como isso vem sendo aplicado de maneira satisfatória é no Refúgio de Alcatrazes, onde os resultados do monitoramento são repassados aos gestores, operadores e condutores de mergulho, assim como outros atores envolvidos. As estratégias de gestão são discutidas e rediscutidas em reuniões periódicas, com base nos resultados do monitoramento. Isso se chama gestão adaptativa, uma abordagem que vem sendo cada vez mais usada com êxito na gestão dos recursos naturais, e agora está se expandindo para o turismo de mergulho. Em breve escreverei mais sobre esse exemplo de Alcatrazes. Bons mergulhos!

Principais aspectos para o monitoramento das condições dos organismos bentônicos e visitação de mergulhadores para subsidiar estratégias de gestão.

Referência:

Giglio VJ, Luiz OJ, Ferreira CEL. 2020. Ecological impacts and management strategies for recreational diving: a review. Journal of Environmental Management 256: 109949. (Texto completo disponível)

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  1. Pingback: Pesquisa propõe uma nova abordagem para mergulhos em área recifais – Onda Azul

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