Peixes alteram a resposta comportamental ao risco enquanto recebem limpeza

Olá pessoal,

Essa semana foi publicado um estudo que gosto bastante. As coletas foram realizadas num local inspirador em que tive o privilégio de permanecer por 42 dias, o Atol das Rocas. Durante os inúmeros mergulhos para coletas de dados do monitoramento de longo prazo do PELD Ilhas Oceânicas, percebi que os peixes que estavam recebendo limpeza permitiam uma maior aproximação do que os que não recebiam limpeza. Foi aí que minha curiosidade científica se aguçou e resolvi testar essa teoria. Outro privilégio que tive durante a realização desse estudo, foi de colaborar com um dos maiores etologistas (cientista que estuda comportamento) do mundo, o professor Daniel Blumstein.

As interações de limpeza são comuns em ambientes recifais. Enquanto a espécie limpadora remove parasitas do cliente, obtendo alimento, o cliente se beneficia por ter tido os parasitas removidos. Ambos saem ganhando nessa interação (mas nem sempre é assim, assunto para posts futuros). Quando vi que os peixes que estavam sendo limpos permitiam uma maior aproximação, logo pensei que eles “relaxavam” um pouco mais com o comportamento de fuga porque estavam recebendo um benefício. Em Atol das Rocas, o peixe limpador mais comum é o Budião-de-Noronha (Thalassoma noronhanum), logo observei as interações de limpeza dessa espécie.

Budião-de-Noronha em interações de limpeza no Atol das Rocas. Fonte: Quimbayo et al. (2017)

Para medir a distância de fuga, me aproximei de peixes de duas espécies (budião e jaguareça) em dois momentos, enquanto recebiam limpeza e quando não estavam sendo limpos. Quando o peixe fugia, eu fazia a medição do espaço entre o local que eu estava e que o peixe fugiu por meio de uma fita métrica, usando o substrato como referência. Além do fator ‘receber limpeza’, também verifiquei se o tamanho corporal do cliente e o número de limpadores poderiam influenciar na distância de fuga.

Verificamos que enquanto estavam recebendo limpeza, os clientes permitiam uma aproximação cerca de 30% maior do que quando não estavam nessa interação. Isso ocorreu independente do tamanho do cliente e teve pouca influência com relação ao número de limpadores. Receber o benefício de uma limpeza faz com que o peixe mude seu comportamento quanto a percepção de risco, tolerando uma maior aproximação. Já parou para pensar que as vezes toleramos um maior risco ao fazer algo que nos é benéfico ou prazeroso!?

Referências:

Giglio VJ, Nunes JACC, Ferreira CEL, Blumstein DT. (2020). Client reef fish tolerate closer human approaches while being cleaned. Journal of Zoology. doi: 10.1111/jzo.12814. (PDF disponível aqui)

Quimbayo JP, Nunes LT, Ozekoski R, Floeter SR, Morais RA, Fontoura L, Bonaldo RM, Ferreira CEL, Sazima I. (2017). Cleaning interactions at the only atoll in the South Atlantic. Environmental Biology of Fishes 100, 865-857 (PDF disponível aqui)

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