Mais uma ameaça? Pesca de tubarões associados a carcaças de baleias jubarte no Banco dos Abrolhos

As baleias jubarte frequentam a costa brasileira para se acasalar e reproduzir entre  julho e novembro, sendo o banco dos Abrolhos a principal área. Para se ter uma ideia, em uma navegada de poucas horas é possível avistar dezenas de baleias. A população de baleias jubarte tem aumentado a cada ano, fruto do aumento populacional após a proibição da caça. Como consequência, nos últimos anos tem ocorrido um aumento no número de encalhes. Muitas dessas baleias mortas passam dias boiando no mar até chegar as praias ou podem até não chegar ao litoral.

Tubarões costumam se alimentar oportunisticamente de carcaças de baleia, uma comida fácil e abundante. Entre os oportunistas, as espécies mais relatadas são o tubarão-branco e o tubarão-tigre (Galeocerdo cuvier). No Banco dos Abrolhos, com o aumento do número de carcaças, os tubarões-tigre estão cada vez mais se aproveitando dessa farta fonte de alimento. Um estudo avaliou a frequência com que carcaças de baleias são encontradas com mordidas de tubarões e verificou que grandes indivíduos haviam se alimentado de 22% das 150 carcaças de baleias amostradas.

Foto da esquerda: tubarão-tigre se alimentando em uma carcaça de baleia jubarte no Banco dos Abrolhos. Direita: carcaça encalhada com marcas de mordida de grandes tubarões no Banco dos Abrolhos. Imagens retiradas de Bornatowski et al (2012).

Pescadores artesanais têm usado essas carcaças como pesqueiros de tubarões há décadas. Entretanto, com o aumento na população de jubartes e consequentemente no número de carcaças, a frequência dessa pesca tem aumentado consideravelmente. No momento da alimentação, os tubarões são altamente vulneráveis a captura. A população dessa espécie já vem sendo reportada pelos próprios pescadores como cada vez mais escassa. Essa pesca se frequente é mais uma ameaça a esses grandes predadores.

O vídeo acima mostra uma agregação de tubarões-tigre se alimentando em uma carcaça de baleia na Austrália.

Recentemente, vídeos de capturas têm circulado nas redes sociais, feitas com arpão até de fora da água, da embarcação. Em conversas informais com atores da pesca, é nítido perceber que eles cada vez mais usam carcaças como pesqueiros de tubarões e outras espécies de predadores.

Pescadores arpoam tubarão tigre se alimentando em carcaça de baleia. Notem que o arpão foi disparado da embarcação, pois os tubarões entram em um “estado de transe” enquanto estão se alimentando e ficam altamente vulneráveis, permitindo aproximação.

Tubarões são espécies importantes para o ecossistema recifal atuando no controle populacional de suas presas. As capturas necessitam ser controladas para garantir a conservação dos tubarões e a saúde do ecossistema. Medidas de gestão se fazem urgentes, como por exemplo a implementação de limites de captura, proibição sazonal da pesca, ou até a proibição da captura de tubarões associados as carcaças de baleias. Entretanto, essas medidas só serão efetivas se fiscalizadas, o que não tem ocorrido com a gestão da pesca na costa brasileira.  

Mais um temporada de baleias-jubarte está chegando e ficam as perguntas no ar: quantos tubarões associados as carcaças serão capturados? Essa pesca é sustentável?

Referência:

Bornatowski H, Wedekin LL, Heithaus MR, Marcondes MCC, Rossi-Santos MR. 2012. Shark scavenging and predation on cetaceans at Abrolhos Bank, eastern Brazil. Journal of the Marine Biological Association of the United Kingdom 92(8), 1767–1772.

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Usando um vídeo educativo para reduzir os potenciais impactos do mergulho recreativo em Arraial do Cabo

O mergulho recreativo tem se popularizado nas últimas décadas, tornando-se uma importante fonte de renda em muitas comunidades costeiras. Entretanto, os potenciais impactos da atividade são motivo de preocupação entre gestores e pesquisadores. Mergulhadores podem realizar contatos com o recife, local que abriga organismos bentônicos frágeis, como corais, esponjas e gorgônias. No Brasil, a Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo é o destino mais procurado por mergulhadores. O local abriga uma fauna única de corais e outros organismos bentônicos que têm sido afetados pelas atividades recreativas, incluindo o mergulho.

Num estudo publicado no renomado jornal inglês, Journal of Sustainable Tourism, pesquisadores testaram o uso de um vídeo educativo para reduzir as interações dos mergulhadores com o recife e seus habitantes em Arraial do Cabo. O estudo e a produção do vídeo foram realizados em parceria com o ICMBio – órgão gestor da RESEXMAR de Arraial do Cabo e Associação das Operadoras de Mergulho de Arraial do Cabo. A principal mensagem do vídeo é referente a dicas de como os mergulhadores devem se comportar para reduzir as chances de tocarem o recife. Para testar a efetividade da ferramenta, os mergulhadores assistiram a vídeo previamente e seu comportamento foi observados pelos pesquisadores de maneira anônima para não influenciar em sua postura. Comparado ao comportamento dos que não assistiram o vídeo, houve uma redução significativa no número de toques e danos aos corais, gorgônias e esponjas. Esta redução foi observada para os diferentes perfis de mergulhadores com relação ao sexo e experiência, principalmente entre os fotógrafos.

Conteúdo do vídeo-briefing educativo, na imagem são descritas quatro das cinco dicas de técnicas de mínimo impacto do mergulho recreativo.

O uso do vídeo possui vantagens com relação a explanação oral porque é de fácil implementação, pode ser repassado aos mergulhadores de uma maneira uniforme e não necessita de uma equipe capacitada para repassar as informações. Além disso, é uma ferramenta de baixo custa e que pode ser disponibilizada gratuitamente em sites de compartilhamento de vídeos.

Acesse o vídeo clicando aqui

Para acessar o artigo gratuitamente, clique aqui

 

Moreias, miriquitas e seus seguidores: uma “boquinha” praticamente irresistível

As associações alimentares de tipo nuclear-seguidor são aquelas em que a atividade de alimentação de uma espécie (nuclear) atrai atenção de um outra espécie (seguidora) que ganha alguma vantagem. Essas associações são bastante comuns em vários grupos de animais terrestres e aquáticos, como no caso de diversas aves especialistas em seguir formigas-de-correições em florestas tropicais e que se alimentam de pequenos invertebrados que fogem das formigas para virarem presas fáceis dos insetos. No Centro-Oeste brasileiro, a atividade alimentar de grupos de macaco-prego (Cebus cay) chama a atenção da piraputanga (Brycon hilarii), um peixe onívoro que se alimenta de frutos derrubados e, mesmo de dentro da água segue os bandos de macacos a medida que eles avançam ao longo das margens dos riachos. Entre peixes recifais, essas associações ocorrem quando as espécies nucleares perturbam o substrato para procurar alimentos, atraindo peixes seguidores que aproveitam para se alimentar de organismos expostos pelo nuclear, como pequenos peixes e invertebrados.

A associação nuclear-seguidor é descrita para diversas espécies e famílias de peixes recifais. Dentre eles, os peixes anguiliformes (veja glossário no final) são frequentemente observados como espécies nucleares e podem ser seguidos por diversas espécies de seguidores, que buscam comida a um “custo baixo”.  Moreias e miriquitas buscam o alimento no recife, têm como alvo organismos associados a rochas ou ao sedimento. Um recente estudo investigou os seguidores da miriquita-pintada (Myrichthys ocellatus), espécie comum no litoral brasileiro. Os autores observaram as miriquitas para verificar se estavam se alimentando e se haviam seguidores fazendo uma “boquinha”. Das 211 miriquitas observadas, 19% estavam sendo seguidas por peixes de sete espécies diferentes, geralmente com um seguidor ou um par de indivíduos por evento observado. Em algumas ocasiões, o peixe seguidor é tão possessivo com que chega a afugentar outros peixes e até mesmo demonstrar comportamento agressivo para o mergulhador.

Nuclear e seguidor se movimentando no recife. Foto: Vinicius Giglio

Miriquita buscando comida no substrato e sendo seguida por dois peixes budiões (Bodianus rufus). Foto: Vinicius Giglio

Para os peixes anguiliformes em geral, os autores fizeram uma busca na literatura e verificaram que 13 espécies são descritas como nucleares, sendo seguidas por 66 espécies de peixes. Entretanto, esse número de espécies nucleares e principalmente os seguidores que buscam fazer uma “boquinha” junto ao jantar das moreias deve ser muito maior. As miriquitas, espécie foco do estudo, tiveram um maior número de seguidores dentre os peixes anguiliformes, com 20 espécies no total, sendo a maioria composta por garoupas e badejos (família Epinephelidae). Os autores concluem que os peixes anguiliformes nucleares podem um papel importante na ecologia trófica de peixes carnívoros pequenos e médios. A relação entre moreias e garoupas chega a ser tão intensa que existem locais em que elas desenvolveram uma parceria tão íntima que chegam a caçar conjuntamente de maneira coordenada: enquanto a moreia entra em fendas e buracos que inacessíveis à garoupa, esta fica a espreita de pequenos peixes e crustáceos que escapam da moreia e assim todos saem ganhando.

Seguidor com postura agressiva para o mergulhador. Esse tipo de comportamento de defesa da espécie seguidora é pouco conhecido e pode ser caracterizado como uma vantagem que o nuclear ganha dessa associação. Foto: Vinicius Giglio

Referência: Ternes MLF, Giglio VJ, Mendes TC, Pereira PHC (2018) Follower fish of the goldspotted eel Myrichthys ocellatus with a review on anguilliform fish as nuclear species. Helgoland Marine Research 72:2. O estudo pode ser acessado gratuitamente através desse link

Glossário:

Peixes anguiliformes: ordem de peixes que possuem o corpo longo e cilíndrico à qual pertencem enguias, miriquitas e moreias.

Escrito por Vinicius Giglio e Thiago Mendes

Quanto mais inacessível o recife, melhor para os tubarões

Tubarões recifais (aqueles que vivem associados a recifes biogênicos ou rochosos) estão declinando mundialmente devido ao crescente esforço de pesca. As consequências desse declínio têm gerado preocupantes alterações no funcionamento de todo o ecossistema. Um clássico exemplo é o de que tubarões controlam a população de suas presas e a retirada deles causa um aumento descontrolado na população das mesmas e consequentemente a desestabilização da teia alimentar. Tubarões também são importantes para a ciclagem de nutrientes, transporte de nutrientes entre diferentes áreas e hábitats, remoção de espécies invasoras, indivíduos (presas) doentes e fracos.

Tubarões são importantes para a saúde do ecossistema recifal. A espécie da foto trata-se de Carcharhinus melanopterus. Créditos: Sérgio Floeter.

Áreas marinhas protegidas tem sido a principal ferramenta para conter os impactos da pesca. Dentre os tubarões, quais as características de uma área marinha protegida a torna mais efetiva para conservar as espécies? Para responder essa pergunta, pesquisadores utilizaram dados de uma extensiva pesquisa com tubarões na Nova Caledônia, no oceano Pacífico. A coleta de dados foi feita por meio de vídeos de veículos remotos subaquáticos com iscas e censos visuais subaquáticos, dentro e fora de 15 áreas marinhas protegidas. As áreas amostradas possuem um gradiente de isolamento de menos de uma hora de uma capital regional a mais de 25 horas de distância.

No vídeo abaixo pode-se observar um veículo remoto subaquático capturando imagens para uma pesquisa com tubarões.

Os resultados mostraram que para recifes de coral, mesmo nas áreas marinhas protegidas mais antigas, maiores e mais restritivas, há menos tubarões do que em áreas remotas onde tubarões não têm sido historicamente alvo da pesca. Em áreas marinhas protegidas a menos de 1 hora de viagem de distância para cidades ou vilas, as populações de tubarões ocorrem em abundância tão baixa que seus papéis funcionais são severamente limitados.

Além de reduzir a chance de conflitos com os setores que exploram os recursos marinhos, priorizar esforços de conservação em áreas remotas pode ser valioso para preservar espécies altamente vulneráveis. Um belo exemplo na costa brasileira são as ilhas de Trindade e Martim Vaz, localizadas a cerca de 1200 km da costa. Porém, infelizmente, apesar de esforços de pesquisadores e conservacionistas para conservar esses importantes refúgios, as ilhas não estão protegidas da pesca. Nestas ilhas, a abundância de tubarões e outros predadores têm sido consideravelmente reduzida.

Referência: Juhel J.-P.; Vigliola L.; Mouillot D.; Kulbichi M.; Letessier TB.; Meeuwig J.; Wantiez L. 2017. Reef accessibility impairs the protection of sharks. Journal of Applied Ecology. (o artigo pode ser acessado gratuitamente aqui, e os dados utilizados da pesquisa também pode ser acessados gratuitamente aqui

Sobre a necessidade urgente de instalação de poitas nos pontos de mergulho em Arraial do Cabo

Poitas são equipamentos importantes para conservar a biodiversidade, especialmente em destinos de mergulho no qual as embarcações necessitam estar próximas aos costões rochosos ou recifes coralíneos. As poitas eliminam a necessidade das embarcações lançarem suas âncoras sobre o substrato consolidado (rochas e recifes coralíneos), ondem habitam organismos sensíveis como corais, gorgônias e esponjas. A ancoragem pode causar danos a esses organismos, devido ao atrito com as âncoras e seus cabos.

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Ilustração de uma poita de atracamento de embarcações

Entretanto, na Reserva Extrativista Marinha (RESEXMar) de Arraial do Cabo, um dos mais frequentados destinos para entre mergulhadores no Brasil, não existem poitas nos pontos de mergulho. Apesar de um sistema de poitas ser solicitado há alguns anos por pesquisadores e operadores de mergulho, as âncoras ainda são lançadas diariamente nos costões rochosos. Isso se deve a entraves burocráticos entre ICMBio, beneficiários da RESEXMar e Marinha. Como medida de mitigar os possíveis impactos, os gestores estabeleceram que as âncoras secundárias (fixadas nos costões rochosos) devem ser colocadas manualmente pelos condutores de mergulho, evitando locais que ocorram organismos bentônicos.

Em um estudo recente realizado por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense, foram verificados os danos causados pelas âncoras aos corais, gorgônias e outros organismos bentônicos. Os resultados revelaram que mesmo sendo colocadas manualmente, as âncoras continuam causando danos aos organismos bentônicos. Apesar dos danos serem em menor escala devido a colocação manual, nos atuais níveis de visitação, a ancoragem foi considerada como um importante estressor aos organismos bentônicos da RESEXMar de Arraial do Cabo. Estes danos contribuem para a redução da complexidade do recife, causando efeitos negativos ao longo de toda a cadeia trófica do recife. Também foi verificado que a colocação manual das âncoras traz riscos a segurança dos mergulhadores que as instalam e removem do recife, devido a possibilidade de choque mecânico com o recife.

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Danos causados aos organismos bentônicos da RESEXMar de Arraial do Cabo. a) âncora danificando uma colônia de coral-de-fogo (Millepora alcicornis) b e c) âncora a cabo danificando colônias de baba-de-boi (Palythoa caribaeorum); d) cabo suspendendo uma colônia do coral Siderastrea stellata. Fotos tiradas por Vinicius Giglio

Para eliminar os impactos aos organismos bentônicos, os pesquisadores sugerem a urgente instalação de um sistema de poitas nos principais pontos de mergulho. O custo seria mínimo para um local que gera tanta renda por meio de turismo de mergulho.

Referência: Giglio VJ, Ternes MLF, Mendes TC, Cordeiro CAMM, Ferreira CEL (2017) Anchoring damages to benthic organisms in a subtropical scuba dive hotspot. Journal of Coastal Conservation 21(2): 311-316. PDF

Agregações reprodutivas: o calcanhar de Aquiles dos peixes recifais

Agregações reprodutivas são eventos no qual os peixes de uma região se juntam num determinado local todos os anos e na mesma época para se reproduzirem. Algumas agregações chegam a ter milhares de indivíduos, como a da garoupa-de-nassau, Epinephelus striatus (veja vídeo abaixo). Esse também é o momento em que os peixes ficam mais vulneráveis à pesca. Por exemplo, o esforço de pesca de alguns poucos pescadores podem capturar uma agregação inteira de espécies como o mero Epinephelus itajara. Para agravar o problema, a pesca desordenada em uma agregação pode comprometer os indivíduos maduros e as gerações consequentes, pois se ainda não tiver ocorrido a desova, não haverá próxima geração.

Nesse contexto, proteger os locais de agregação dos peixes recifais é essencial para garantir a saúde dos estoques pesqueiros. Iniciativas de sucesso têm sido a aplicação de uma moratória sazonal na época das agregações reprodutivas, ou cotas limites para capturas nesse período.

Em um estudo publicado recentemente, foram mapeados os locais de agregação de meros na costa brasileira. A espécie é o primeiro peixe marinho a ter uma moratória de pesca específica no Brasil desde 2002, devido aos declínios consideráveis nas capturas. Entretanto, grandes volumes de capturas ilegais têm sido reportadas para a costa brasileira. Os meros formam agregações com dezenas de indivíduos e se tornam alvos fáceis da pesca nesse período. Conhecer esses locais é o primeiro passo para se elaborar medidas de gestão que possa auxiliar no combate a pesca ilegal da espécie.

Para mapear as agregações, os pesquisadores usaram informações e registros fotográficos repassados por pescadores, mergulhadores e pesquisadores. Foram descritos 98 registros de agregações em 11 pontos na costa brasileira, entre 1993 e 2015. A maioria das agregações foi registrada no verão e na região sul, geralmente em estruturas artificiais, como recifes artificiais e monobóias do setor petrolífero. Foram registrados eventos de pesca ilegal durante agregações, principalmente no nordeste e norte do Brasil. Os autores sugerem ações de fiscalização nesses locais na época de agregação para reduzir a pesca ilegal e contribuir para a recuperação populacional dos meros.

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Agregações de meros na costa brasileira: a) Apreensão na RESEX de Cururupú, no Pará; b) Parque dos Meros, no Paraná; c) Banco dos Abrolhos, na Bahia; d) Monobóia, em Santa Catarina. Créditos: a) Gerex IBAMA; b) M. Krause; c) Rivelino Nova Viçosa; d) Jonas Leite

Referência: Giglio VJ, Leite JR, Freitas MO, Hostim-Silva M (2016) Mapping goliath grouper aggregations in the southwestern Atlantic. Brazilian Journal of Oceanography 64(4): 417-420. PDF

Tubarões que seguem o líder

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Tubarão cinzento dos recifes. Crédito: http://www.vincent-truchet.com

Pesquisadores verificaram a primeira evidência de processos sociais de longo prazo entre tubarões. O estudo foi realizado com o tubarão cinzento dos recifes (Carcharhinus amblyrhynchos), no atol de Palmyra, no oceano Pacífico. A movimentação dos tubarões foi rastreada por seis meses, com o uso do método da telemetria. Foi verificado que alguns indivíduos emergiam como líderes da população e que essa postura de coordenação comportamental é predita pelo sexo e duração das co-ocorrências entre os congêneres. Interessantemente, os líderes tendiam a ser fêmeas, abrindo discussão para questões sobre a importância das interações entre os sexos na estruturação da dinâmica populacional dos tubarões.

Segundo o líder do estudo, David Jacoby: “os tubarões não se moviam aleatoriamente, ou com nada em mente além de comida. Haviam dinâmicas sociais em jogo: padrões de associação, de tubarões passando mais tempo com alguns indivíduos do que outros, de indivíduos com posições periféricas ou centrais em relação ao grupo”.

Referência:

Jacoby DMP, Papastamatiou YP, Freeman R (2016) Inferring animal social networks and leadership: applications for passive monitoring arrays. Journal of the Royal Society Interface 13: 20160676 PDF

Peixe-serra: um gigante dócil, enigmático e a beira da extinção

Você já ouviu falar em um peixe gigante e dócil, que atinge cerca de 7 metros e tem uma serra na ponta da cabeça que pode chegar a dois metros? Isso mesmo, é uma serra que ele usa para atordoar suas presas, pequenos peixes e crustáceos.

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Esse maravilhoso e enigmático peixe ocorreu praticamente ao longo de toda a costa brasileira, em áreas costeiras, principalmente manguezais e estuários. Duas espécies são registradas, Pristis pristis e Pristis pectinata. Elas são diferenciadas através do espaçamentos entre os dentículos da serra, P. pristis tem os dentes mais espaçados e largos e P. pectinata tem os dentes menos espaçados e menores.

Porém, as próximas notícias não são nem um pouco animadoras. Ambas as espécies são classificadas globalmente pela União Internacional para a Conservação da Natureza como criticamente ameaçadas de extinção. No Brasil, em poucas décadas esses peixes desapareceram praticamente de toda a nossa costa. Como medida precaucionaria, ambas as espécies tiveram a pesca e comercialização proibidas no Brasil desde 2004. Entretanto, infelizmente, P. pectinata já pode ser considerado extinto no país e os últimos indivíduos de P. pristis estão sendo capturados ilegalmente na região norte e geralmente vendidos filetados como outras espécies de tubarões e raias. A extinção dessas espécies está sendo testemunhada ela nossa geração.

Para tentar entender como ocorreu o declínio das capturas de P. pristis nas últimas décadas, nos últimos dois anos pesquisadores entrevistaram pescadores para obter registros de capturas nos estuários do estado da Bahia, um tradicional ponto de ocorrência da espécie. O incremento de novas tecnologias de pesca, especialmente as redes e o aumento do esforço foram os fatores determinantes para o desaparecimento das espécies, que são alvos fáceis das redes por se enroscarem em seu rostro, impossibilitando as chances de fuga. A quantidade e tamanho de peixes-serra capturados foram reduzindo rapidamente ao longo das gerações de pescadores, no qual o referencial de tamanho e abundância dos pescadores mais antigos só é conhecido por seus relatos.

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Peixe-serra capturado na Índia. Repare na rede toda enroscada no rostro ou serra do peixe, impossibilitando sua fuga. Assim como no Brasil, os últimos invidíduos estão sendo pescados por lá.

 

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Peixe-serra (Pristis pristis) capturado ilagalmente no município de Alcantâra, no estado do Maranhão em Junho de 2015. B) Rostro ou serra do peixe. Para saber mais notícias sobre o ocorrido e seu desfeixo legal, clique aqui e aqui

O que podemos fazer para salvar essa espécie da extinção no Brasil? Primeiramente criar áreas de exclusão da pesca com rede em áreas costeiras (especialmente estuários e manguezais), acabar com a pesca ilegal, sensibilizar os pescadores quando as urgentes necessidades de conservação da espécie e prover alternativas de renda para as famílias em risco social e que retiram parte de seu sustento da pesca e venda ilegal da espécie. E isso tudo tem que ser para ontem, pois extinção é para sempre!! Você tem outras sugestões? Compartilhe conosco!

Referências:

Palmeira CAM, Rodrigues-Filho LFS, Sales JBL, Vallinoto M, Schneider H, Sampaio I (2013) Commercialization of a critically endangered species (largetooth sawfish, Pristis perotteti) in fish markets of northern Brazil: Authenticity by DNA analysis. Food Control 34: 249-252. LINK

Giglio VJ, Luiz OJ, Gerhardinger LC (2015) Depletion of marine megafauna and shifting baselines among artisanal fishers in eastern Brazil. Animal Conservation 18: 348-358. PDF

Giglio VJ, Luiz OJ, Gerhardinger LC (2016) Memories of sawfish fisheries in a southwestern Atlantic estuary. SPC Traditional Marine Resource Management and Knowledge Information Bulletin 36:  28-32. PDF

Reis-Filho JA, Freitas RHA, Loiola M, Leite L, Soeiro G, Oliveira HHQ, Sampaio CLS, Nunes JACC, Leduc AOHC (2016) Traditional fisher perceptions on the regional disappearance of the largetooth sawfish Pristis pristis from the central coast of Brazil. Endangered Species Research 29: 189-200. PDF

Saiu o documentário da Rede Abrolhos

Vídeo

Acaba de ser disponibilizado um documentário muito interessante, sobre as atividades da Rede Abrolhos. A Rede tem como objetivo integrar iniciativas inter-institucionais de pesquisa, capacitação, formação de recursos humanos e gestão ambiental produzindo e transmitindo conhecimento sobre o maior recife coralíneo do Atlântico Sul, o Banco do Abrolhos.

Não deixem de assistir!

 

Caso mais antigo de câncer é encontrado em ancestral humano de 1.7 milhões de anos

 

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Osso do pé (metatarso) de um hominídeo usado na pesquisa, mostrando a extensão do câncer para a superfície do osso. Crédito: Patrick Randolph-Quinney.

Uma equipe de pesquisadores internacionais descobriu a evidência mais antiga de câncer e tumores ósseos descritos para um fóssil humano, encontrado na caverna Swartkrans, na África do Sul. O diagnóstico foi possível através de avanços nos métodos de análises de imagens 3D. A descoberta muda a data mais antiga para essa doença aos tempos recentes na pré-história. Apesar da espécie exata no qual o osso do pé analisado pertence seja desconhecida, está claro que é um hominídeo, ou bípede evolutivamente próximo aos humanos.

O autor líder da pesquisa, Edward Odes, afirma que: “A medicina moderna tende a assumir que câncer e tumores em humanos são doenças causadas pelo estilo de vida e ambiente moderno. Entretanto, nosso estudo mostrou que as origens dessas doenças ocorreram em ancestrais de milhões de anos antes da sociedade moderna existir”.

O câncer encontrado em um osso do pé (metatarso) foi identificado como um osteosarcoma, uma forma agressiva de câncer que geralmente afeta indivíduos jovens em seres humanos modernos. Se não tratado, o osteosarcoma normalmente resulta em óbito precoce. No ancestral não foi possível identificar se o osso do pé trata-se de um jovem ou adulto, nem se o câncer foi responsável pela morte do indivíduo, porém ele certamente afetou as habilidades de caminhar ou correr.

 

Referência: Odes EJ, Randolph-Quinney PS, Steyn M, Throckmorton Z, Smilg JS, Zipfel B, et al. Earliest hominin cancer: 1.7-million-yearold osteosarcoma from Swartkrans Cave, South Africa. S Afr J Sci. 2016;112(7/8),