Mais uma ameaça? Pesca de tubarões associados a carcaças de baleias jubarte no Banco dos Abrolhos

As baleias jubarte frequentam a costa brasileira para se acasalar e reproduzir entre  julho e novembro, sendo o banco dos Abrolhos a principal área. Para se ter uma ideia, em uma navegada de poucas horas é possível avistar dezenas de baleias. A população de baleias jubarte tem aumentado a cada ano, fruto do aumento populacional após a proibição da caça. Como consequência, nos últimos anos tem ocorrido um aumento no número de encalhes. Muitas dessas baleias mortas passam dias boiando no mar até chegar as praias ou podem até não chegar ao litoral.

Tubarões costumam se alimentar oportunisticamente de carcaças de baleia, uma comida fácil e abundante. Entre os oportunistas, as espécies mais relatadas são o tubarão-branco e o tubarão-tigre (Galeocerdo cuvier). No Banco dos Abrolhos, com o aumento do número de carcaças, os tubarões-tigre estão cada vez mais se aproveitando dessa farta fonte de alimento. Um estudo avaliou a frequência com que carcaças de baleias são encontradas com mordidas de tubarões e verificou que grandes indivíduos haviam se alimentado de 22% das 150 carcaças de baleias amostradas.

Foto da esquerda: tubarão-tigre se alimentando em uma carcaça de baleia jubarte no Banco dos Abrolhos. Direita: carcaça encalhada com marcas de mordida de grandes tubarões no Banco dos Abrolhos. Imagens retiradas de Bornatowski et al (2012).

Pescadores artesanais têm usado essas carcaças como pesqueiros de tubarões há décadas. Entretanto, com o aumento na população de jubartes e consequentemente no número de carcaças, a frequência dessa pesca tem aumentado consideravelmente. No momento da alimentação, os tubarões são altamente vulneráveis a captura. A população dessa espécie já vem sendo reportada pelos próprios pescadores como cada vez mais escassa. Essa pesca se frequente é mais uma ameaça a esses grandes predadores.

O vídeo acima mostra uma agregação de tubarões-tigre se alimentando em uma carcaça de baleia na Austrália.

Recentemente, vídeos de capturas têm circulado nas redes sociais, feitas com arpão até de fora da água, da embarcação. Em conversas informais com atores da pesca, é nítido perceber que eles cada vez mais usam carcaças como pesqueiros de tubarões e outras espécies de predadores.

Pescadores arpoam tubarão tigre se alimentando em carcaça de baleia. Notem que o arpão foi disparado da embarcação, pois os tubarões entram em um “estado de transe” enquanto estão se alimentando e ficam altamente vulneráveis, permitindo aproximação.

Tubarões são espécies importantes para o ecossistema recifal atuando no controle populacional de suas presas. As capturas necessitam ser controladas para garantir a conservação dos tubarões e a saúde do ecossistema. Medidas de gestão se fazem urgentes, como por exemplo a implementação de limites de captura, proibição sazonal da pesca, ou até a proibição da captura de tubarões associados as carcaças de baleias. Entretanto, essas medidas só serão efetivas se fiscalizadas, o que não tem ocorrido com a gestão da pesca na costa brasileira.  

Mais um temporada de baleias-jubarte está chegando e ficam as perguntas no ar: quantos tubarões associados as carcaças serão capturados? Essa pesca é sustentável?

Referência:

Bornatowski H, Wedekin LL, Heithaus MR, Marcondes MCC, Rossi-Santos MR. 2012. Shark scavenging and predation on cetaceans at Abrolhos Bank, eastern Brazil. Journal of the Marine Biological Association of the United Kingdom 92(8), 1767–1772.

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Saiu o documentário da Rede Abrolhos

Vídeo

Acaba de ser disponibilizado um documentário muito interessante, sobre as atividades da Rede Abrolhos. A Rede tem como objetivo integrar iniciativas inter-institucionais de pesquisa, capacitação, formação de recursos humanos e gestão ambiental produzindo e transmitindo conhecimento sobre o maior recife coralíneo do Atlântico Sul, o Banco do Abrolhos.

Não deixem de assistir!