Agregações reprodutivas: o calcanhar de Aquiles dos peixes recifais

Agregações reprodutivas são eventos no qual os peixes de uma região se juntam num determinado local todos os anos e na mesma época para se reproduzirem. Algumas agregações chegam a ter milhares de indivíduos, como a da garoupa-de-nassau, Epinephelus striatus (veja vídeo abaixo). Esse também é o momento em que os peixes ficam mais vulneráveis à pesca. Por exemplo, o esforço de pesca de alguns poucos pescadores podem capturar uma agregação inteira de espécies como o mero Epinephelus itajara. Para agravar o problema, a pesca desordenada em uma agregação pode comprometer os indivíduos maduros e as gerações consequentes, pois se ainda não tiver ocorrido a desova, não haverá próxima geração.

Nesse contexto, proteger os locais de agregação dos peixes recifais é essencial para garantir a saúde dos estoques pesqueiros. Iniciativas de sucesso têm sido a aplicação de uma moratória sazonal na época das agregações reprodutivas, ou cotas limites para capturas nesse período.

Em um estudo publicado recentemente, foram mapeados os locais de agregação de meros na costa brasileira. A espécie é o primeiro peixe marinho a ter uma moratória de pesca específica no Brasil desde 2002, devido aos declínios consideráveis nas capturas. Entretanto, grandes volumes de capturas ilegais têm sido reportadas para a costa brasileira. Os meros formam agregações com dezenas de indivíduos e se tornam alvos fáceis da pesca nesse período. Conhecer esses locais é o primeiro passo para se elaborar medidas de gestão que possa auxiliar no combate a pesca ilegal da espécie.

Para mapear as agregações, os pesquisadores usaram informações e registros fotográficos repassados por pescadores, mergulhadores e pesquisadores. Foram descritos 98 registros de agregações em 11 pontos na costa brasileira, entre 1993 e 2015. A maioria das agregações foi registrada no verão e na região sul, geralmente em estruturas artificiais, como recifes artificiais e monobóias do setor petrolífero. Foram registrados eventos de pesca ilegal durante agregações, principalmente no nordeste e norte do Brasil. Os autores sugerem ações de fiscalização nesses locais na época de agregação para reduzir a pesca ilegal e contribuir para a recuperação populacional dos meros.

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Agregações de meros na costa brasileira: a) Apreensão na RESEX de Cururupú, no Pará; b) Parque dos Meros, no Paraná; c) Banco dos Abrolhos, na Bahia; d) Monobóia, em Santa Catarina. Créditos: a) Gerex IBAMA; b) M. Krause; c) Rivelino Nova Viçosa; d) Jonas Leite

Referência: Giglio VJ, Leite JR, Freitas MO, Hostim-Silva M (2016) Mapping goliath grouper aggregations in the southwestern Atlantic. Brazilian Journal of Oceanography 64(4): 417-420. PDF

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Peixe-serra: um gigante dócil, enigmático e a beira da extinção

Você já ouviu falar em um peixe gigante e dócil, que atinge cerca de 7 metros e tem uma serra na ponta da cabeça que pode chegar a dois metros? Isso mesmo, é uma serra que ele usa para atordoar suas presas, pequenos peixes e crustáceos.

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Esse maravilhoso e enigmático peixe ocorreu praticamente ao longo de toda a costa brasileira, em áreas costeiras, principalmente manguezais e estuários. Duas espécies são registradas, Pristis pristis e Pristis pectinata. Elas são diferenciadas através do espaçamentos entre os dentículos da serra, P. pristis tem os dentes mais espaçados e largos e P. pectinata tem os dentes menos espaçados e menores.

Porém, as próximas notícias não são nem um pouco animadoras. Ambas as espécies são classificadas globalmente pela União Internacional para a Conservação da Natureza como criticamente ameaçadas de extinção. No Brasil, em poucas décadas esses peixes desapareceram praticamente de toda a nossa costa. Como medida precaucionaria, ambas as espécies tiveram a pesca e comercialização proibidas no Brasil desde 2004. Entretanto, infelizmente, P. pectinata já pode ser considerado extinto no país e os últimos indivíduos de P. pristis estão sendo capturados ilegalmente na região norte e geralmente vendidos filetados como outras espécies de tubarões e raias. A extinção dessas espécies está sendo testemunhada ela nossa geração.

Para tentar entender como ocorreu o declínio das capturas de P. pristis nas últimas décadas, nos últimos dois anos pesquisadores entrevistaram pescadores para obter registros de capturas nos estuários do estado da Bahia, um tradicional ponto de ocorrência da espécie. O incremento de novas tecnologias de pesca, especialmente as redes e o aumento do esforço foram os fatores determinantes para o desaparecimento das espécies, que são alvos fáceis das redes por se enroscarem em seu rostro, impossibilitando as chances de fuga. A quantidade e tamanho de peixes-serra capturados foram reduzindo rapidamente ao longo das gerações de pescadores, no qual o referencial de tamanho e abundância dos pescadores mais antigos só é conhecido por seus relatos.

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Peixe-serra capturado na Índia. Repare na rede toda enroscada no rostro ou serra do peixe, impossibilitando sua fuga. Assim como no Brasil, os últimos invidíduos estão sendo pescados por lá.

 

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Peixe-serra (Pristis pristis) capturado ilagalmente no município de Alcantâra, no estado do Maranhão em Junho de 2015. B) Rostro ou serra do peixe. Para saber mais notícias sobre o ocorrido e seu desfeixo legal, clique aqui e aqui

O que podemos fazer para salvar essa espécie da extinção no Brasil? Primeiramente criar áreas de exclusão da pesca com rede em áreas costeiras (especialmente estuários e manguezais), acabar com a pesca ilegal, sensibilizar os pescadores quando as urgentes necessidades de conservação da espécie e prover alternativas de renda para as famílias em risco social e que retiram parte de seu sustento da pesca e venda ilegal da espécie. E isso tudo tem que ser para ontem, pois extinção é para sempre!! Você tem outras sugestões? Compartilhe conosco!

Referências:

Palmeira CAM, Rodrigues-Filho LFS, Sales JBL, Vallinoto M, Schneider H, Sampaio I (2013) Commercialization of a critically endangered species (largetooth sawfish, Pristis perotteti) in fish markets of northern Brazil: Authenticity by DNA analysis. Food Control 34: 249-252. LINK

Giglio VJ, Luiz OJ, Gerhardinger LC (2015) Depletion of marine megafauna and shifting baselines among artisanal fishers in eastern Brazil. Animal Conservation 18: 348-358. PDF

Giglio VJ, Luiz OJ, Gerhardinger LC (2016) Memories of sawfish fisheries in a southwestern Atlantic estuary. SPC Traditional Marine Resource Management and Knowledge Information Bulletin 36:  28-32. PDF

Reis-Filho JA, Freitas RHA, Loiola M, Leite L, Soeiro G, Oliveira HHQ, Sampaio CLS, Nunes JACC, Leduc AOHC (2016) Traditional fisher perceptions on the regional disappearance of the largetooth sawfish Pristis pristis from the central coast of Brazil. Endangered Species Research 29: 189-200. PDF