Quanto mais inacessível o recife, melhor para os tubarões

Tubarões recifais (aqueles que vivem associados a recifes biogênicos ou rochosos) estão declinando mundialmente devido ao crescente esforço de pesca. As consequências desse declínio têm gerado preocupantes alterações no funcionamento de todo o ecossistema. Um clássico exemplo é o de que tubarões controlam a população de suas presas e a retirada deles causa um aumento descontrolado na população das mesmas e consequentemente a desestabilização da teia alimentar. Tubarões também são importantes para a ciclagem de nutrientes, transporte de nutrientes entre diferentes áreas e hábitats, remoção de espécies invasoras, indivíduos (presas) doentes e fracos.

Tubarões são importantes para a saúde do ecossistema recifal. A espécie da foto trata-se de Carcharhinus melanopterus. Créditos: Sérgio Floeter.

Áreas marinhas protegidas tem sido a principal ferramenta para conter os impactos da pesca. Dentre os tubarões, quais as características de uma área marinha protegida a torna mais efetiva para conservar as espécies? Para responder essa pergunta, pesquisadores utilizaram dados de uma extensiva pesquisa com tubarões na Nova Caledônia, no oceano Pacífico. A coleta de dados foi feita por meio de vídeos de veículos remotos subaquáticos com iscas e censos visuais subaquáticos, dentro e fora de 15 áreas marinhas protegidas. As áreas amostradas possuem um gradiente de isolamento de menos de uma hora de uma capital regional a mais de 25 horas de distância.

No vídeo abaixo pode-se observar um veículo remoto subaquático capturando imagens para uma pesquisa com tubarões.

Os resultados mostraram que para recifes de coral, mesmo nas áreas marinhas protegidas mais antigas, maiores e mais restritivas, há menos tubarões do que em áreas remotas onde tubarões não têm sido historicamente alvo da pesca. Em áreas marinhas protegidas a menos de 1 hora de viagem de distância para cidades ou vilas, as populações de tubarões ocorrem em abundância tão baixa que seus papéis funcionais são severamente limitados.

Além de reduzir a chance de conflitos com os setores que exploram os recursos marinhos, priorizar esforços de conservação em áreas remotas pode ser valioso para preservar espécies altamente vulneráveis. Um belo exemplo na costa brasileira são as ilhas de Trindade e Martim Vaz, localizadas a cerca de 1200 km da costa. Porém, infelizmente, apesar de esforços de pesquisadores e conservacionistas para conservar esses importantes refúgios, as ilhas não estão protegidas da pesca. Nestas ilhas, a abundância de tubarões e outros predadores têm sido consideravelmente reduzida.

Referência: Juhel J.-P.; Vigliola L.; Mouillot D.; Kulbichi M.; Letessier TB.; Meeuwig J.; Wantiez L. 2017. Reef accessibility impairs the protection of sharks. Journal of Applied Ecology. (o artigo pode ser acessado gratuitamente aqui, e os dados utilizados da pesquisa também pode ser acessados gratuitamente aqui

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Nós perdemos 10% das áreas selvagens do mundo nas últimas duas décadas

Uma área selvagem é ocupada por paisagens pristinas, livre de disturbâncias humanas como agricultura de larga escala, rodovias ou indústrias. Essas áreas são importantes por proverem redutos de hábitats para espécies ameaçadas, armazenar e sequestrar carbono, tamponar e regular o clima local, além de suportar muitas das comunidades mais politicamente e economicamente marginalizadas do mundo. Porém, as áreas selvagens recebem pouca atenção de gestores porque são consideradas livres de ameaças e, portanto não são prioridade nos esforços para a conservação.

Pesquisadores mediram mudanças temporais nas áreas selvagens globais comparando mapas dessas áreas a partir da década de 1990. Os resultados mostraram perdas alarmantes de um décimo (3.3 milhões de Km2) das áreas selvagens no mundo, especialmente na Amazônia (30%) e África Central (14%). Essa catastrófica taxa de perda representa o dobro de ganho de proteção das áreas selvagens nesse mesmo período.

 

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Perda global das áreas selvagens nas duas últimas décadas. Modificado de Watson et al (2016)

 

Para reduzir as taxas de destruição, os autores destacam a necessidade imediata de políticas internacionais para reconhecer os valores vitais das áreas selvagens e as ameaças sem precedentes que enfrentam, por meio de ações de conservação multifacetadas e em larga escala. Por exemplo, a criação de áreas protegidas grandes e multi-jurisdicionais, mega-corredores de conservação e estabelecimento de reservas de conservação comunitária para comunidades indígenas.

Referência: Watson JEM, Shanahan DF, Di Marco M, Sanderson EW, Mackey B, Venter O. 2016. Catastrophic Declines in Wilderness Areas Undermine Global Environment Targets. Current Biology 26: 1-6.

Biodiversidade é maior dentro do que fora de áreas protegidas terrestres

Áreas protegidas são consideradas essenciais para a conservação da biodiversidade. Entretanto ainda existem dúvidas sobre sua efetividade. Muitos países, incluindo o Brasil, ainda não conseguiram fazer com que as áreas protegidas cumpram seu papel em conservar a biodiversidade efetivamente.

Com essa questão em mente, grupo de pesquisadores liderados por Claudia Gray, da Universidade de Sussex, no Reino Unido, comparam dados de abundância e riqueza de 13.669 espécies de vertebrados, invertebrados e plantas dentro e fora de 359 áreas protegidas em 48 países. Os autores constataram que áreas protegidas contem 10.6% mais abundância (número de indivíduos) e 14.5% mais riqueza (número de espécies) de que áreas não protegidas. A maior diferença ocorreu entre os tipos de uso da terra: áreas protegidas são mais efetivas onde o uso humano da terra é minimizado, especialmente onde a vegetação primária ou secundária está conservada.  Foi constatado também que a proteção atual não beneficia consistentemente espécies com distribuição restrita e não aumenta a variedade de nichos ecológicos.

Esses resultados reforçam a importância das áreas protegidas, e a necessidade de se manter áreas sem interferência humana.

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Biodiversidade da Floresta Amazônica. Créditos: Billtacular

 

Referência: Gray CL, Hill SLL, Newbold T, Hudson LN, Borger L, Contu S, Hoskins AJ, Ferrier S, Purvis A, Scharlemann PW. 2016. Local biodiversity is higher inside than outside terrestrial protected areas worldwide. Nature Communications 7: 12306